Os segredos de uma Restauração

07ago08

Quando adquiro uma ferramenta antiga procuro logo obter informações sobre sua origem. O valor destas ferramentas reside exatamente nisto, em sua história. Algumas perguntas para quem a fornece são importantes, como:

– Qual a origem desta peça? (lugar e tempo)
– Tem marca? (às vezes a inscrição não é visível)
– Qual a espécie de madeira? (tratando-se de ferramentas de madeira, é claro!)

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A origem da marca Isaac Greaves é inglesa, uma das mais proeminentes do século XIX, e neste período madeiras brasileiras também eram utilizadas para a fabricação de ferramentas estrangeiras, como o jacarandá e o gonçalo-alves.

 

 

Estas informações ajudam também na restauração da ferramenta. Mas nem sempre quem as vende possui tais informações. Por isso resta saber o que a própria peça pode informar, através de seus indícios.

É muito difícil precisar datas, com exceção de ferramentas marcadas e catalogadas. Tratando-se de plainas de madeira a dificuldade aumenta consideravelmente. Com freqüência encontro peças construídas por artesãos anônimos, onde a marca aparece apenas no ferro (quando há alguma marca). Nestes casos cabia a cada artífice compor sua própria ferramenta, de acordo com a lâmina que adquiria.

Eventualmente encontro ferramentas com a marca no cepo, no topo. É importante procurar com cuidado, pois as “carimbadas” deixadas pelos artesãos podem ter amassado a marca (quando o cepo é percutido com um martelo para soltar o ferro). Crostas de ferrugem também escondem a marca na lâmina.
Por outro lado, as ferramentas fabricadas por artesãos anônimos podem ter um valor único, uma vez que não representam unidades de fabricação em série. A raridade de algumas madeiras deve ser levada em consideração, assim como a qualidade das lâminas.

Restauração X Reforma

É fundamental ter em mente que o importante é reconstituir, buscar o aspecto original da peça. Qualquer modificação, mesmo que seja “para melhor” é desconsiderar este aspecto. Diferente de uma reforma, a restauração pretende exaltar a natureza da peça, resgatando o tempo em que foi criada.
A reforma atualiza, e, neste sentido, destrói a história de uma ferramenta antiga.
Então, dentro dos limites de uma restauração é preciso considerar:

– A reconstituição de partes de uma ferramenta (enxertos) deve ser, sempre que possível, feito com a mesma espécie de madeira.

– Ferramentas antigas não devem ser envernizadas, a não ser que esteja seguindo uma receita original. Tradicionalmente usa-se o óleo de linhaça para conservar madeira e metais de peças antigas. Ceras e lustradores de móveis também podem ser utilizados.

– Marcas de uso não devem ser apagadas, pois são as “cicatrizes” de uma velha ferramenta.

– Algumas ferramentas são reproduzidas até hoje, por isso nem toda ferramenta usada é, necessariamente, uma ferramenta antiga. Da mesma forma existem ferramentas antigas que nunca foram utilizadas, estando novas em sua aparência.

 

 

Desvendando uma história

Recentemente resgatei uma velha plaina de afagar, com a marca Isaac Greaves no ferro. Estava sem palmeta, muito suja, com algumas pontas danificadas e com as peças soltas. À parte este aspecto, uma linda plaina de jacarandá, perfeita em sua forma e detalhes, uma raridade.

Para limpar o cepo utilizei solvente, estopa, lã de aço e lixa 220, este último para retirar resíduos persistentes. É preciso ter o máximo cuidado com abrasivos para não arranhar a peça. Limpei as frestas com um estilete e lixas dobradas.

Conforme for, será necessário a desinfestação da peça, se apresentar sinais de presença de térmitas (brocas e cupins), como ocos, pó e furos na madeira. O veneno (Jimocupim, Cipermetrina, etc.) deve ser injetado com auxílio de uma seringa. Uma outra forma é ensacar a ferramenta junto com inseticida, pulverizando o interior antes de fechar. Então é só deixar a ferramenta lacrada por alguns dias. Neste caso não encontrei vestígio algum de infestação, por isso não me preocupei em “envenenar” minha plaina…

No punho havia duas pontas danificadas. Fiz dois pequenos enxertos, com uma sobra de mogno e cola de cianoacrilato.

Depois de retornar a forma original apliquei um pigmento na cor de mogno natural, para igualar o tom das madeiras.


No cepo precisei reconstituir duas pequenas falhas, com sobras de jacarandá. Em pequenas trincas utilizei massa F12, no tom das madeiras. Uma outra forma de tapar uma falha é aplicar uma gota de cianoacrilato e lixar em seguida. Misturar serragem muito fina com seladora de nitrocelulose também pode ser uma boa solução, mas nunca utilize cola branca (PVA) com serragem, pois a cola sempre escurece, e sumo de limão para clarear é apenas mais uma lenda urbana.

No topo da plaina havia uma chapa de latão presa por parafusos. Pelas marcas devia servir para soltar o ferro, além de ser um belo ornamento. Estava firme em seu lugar, parafusos firmes, por isso decidi não desmontar esta peça para limpar. Seria um desastre arrebentar um dos parafusos.

Fixei o punho no cepo, com cola madeira (PVA). Apertei o encaixe com folhas de madeira, coladas previamente na caixa do cepo. Utilizei um sargento com proteção nas extremidades, para não amassar as peças.

Limpeza eletrolítica

O ferro (lâmina) e a capa de ferro estavam coladas, com resíduo de tinta. O parafuso estava emperrado. Para limpeza utilizei o banho eletrolítico, técnica de remoção de ferrugem e outros resíduos que evita a necessidade de uso de abrasivos pesados, como escovas de aço e lixas para metal. A técnica é simples e prática, consistindo basicamente na imersão da peça a ser limpa em substância que permite a passagem de corrente elétrica.

Durante este processo, átomos de hidrogênio são desprendidos, e “limpam” a peça, removendo toda ferrugem. Após o banho o conjunto ferro/capa/parafuso estava completamente solto, sem haver necessidade alguma de esforço para desmontar estas peças.

O ferro antes do banho…

…e depois!

Montei um aparelho para limpar lâminas e pequenas peças, com alguma sucata e uma fonte de alimentação. Experimentei utilizar uma fonte de um velho computador, na saída 12V-12A (fio amarelo). O resultado foi ótimo e o custo zero.

Para fazer a solução utilizei carbonato de sódio, conhecido no Brasil como “barrilha”, produto usado para corrigir o Ph da água de piscinas, encontrado nas lojas do ramo. São necessárias três a quatro colheres de sopa para um litro d’agua. Os eletrodos fixos podem ser feitos de alguma lata ou um vergalhão, basta ser de ferro.  Estes eletrodos têm contato com o pólo positivo (fio amarelo). O pólo negativo (fio preto) tem contato com a peça a ser limpa, por isso cuidado: a inversão dos pólos pode danificar permanentemente a peça.

Esta operação deve ser feita em ambiente arejado, de preferência ao ar livre, pois a eletrólise desprende gases de hidrogênio, altamente inflamáveis. Após o banho eletrolítico é preciso retirar o óxido negro do ferro, com água, escova e sabão. Para terminar a limpeza utilizei álcool, que tem a qualidade de ser volátil, o que ajuda a secar a peça. Imediatamente após a secagem apliquei óleo de máquina na lâmina.

Correção do chanfro

O gume do ferro estava com muitos dentes. O ângulo do chanfro menor que 25°, ângulo recomendável para os ferros de plaina em geral (este é o resultado de diversas afiações descuidadas). Para controlar a medida do ângulo utilizei um goniômetro (um instrumento transferidor de ângulos).

Para refazer o chanfro utilizei um disco de lixa adaptado à furadeira de coluna. Esta máquina permite regular sua rotação, por isso reduzi para a menor velocidade, afinal ninguém quer destemperar a lâmina.

Com um gabarito para afiação fixada na peça usinei com precisão um novo chanfro, sem haver a necessidade de remover o anterior, pois seria um enorme desgaste para lâmina.


Continuei a afiação manualmente, na pedra carborundum,  assentando o fio sobre um taco de madeira com um pouco de pasta de polir. Assim ficou como um fio de navalha!

 

Reconstituição da palmeta

Usinei a palmeta de acordo com a dimensão do encaixe, e também sob a orientação de um desenho técnico de uma plaina de afagar.

Esta abertura na palmeta permite a passagem das fitas de madeira. Se não houver, a ferramenta entope.

Utilizei mogno, a mesma madeira para os enxertos, parecido com a madeira do punho.

A base da plaina foi retificada, com tacos de lixa e sob o controle de uma régua de aço. Para a plaina deslizar melhor esfreguei uma vela sobre a base.

Então, para finalizar a restauração apliquei uma demão de seladora de nitrocelulose e cera, que acentuou o tom das madeiras e permitiu um bom polimento. Regulei o ferro e experimentei a plaina, com o mesmo prazer de quem prova um bom vinho… e assim acabamos de desvendar seus segredos!
– Diego de Assis

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.

 

 

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