na Finlândia brasileira

22abr10

Às margens da rodovia Presidente Dutra no Rio de Janeiro situa-se Penedo, distrito de Itatiaia. Local turístico, é representante da cultura finlandesa e está localizada numa das reservas naturais mais exuberantes de nossa mata atlântica.

Nascia em 1929 uma pequena colônia nesta região, fundada e idealizada por Toivo Uuskallio, finlandês  filho de artesão;  seu pai fabricava móveis, armas e “Kantele”, um instrumento de cordas típico da Finlândia (próxima foto). Toivo pretendia encontrar nos trópicos um clima que permitisse um estilo de vida mais natural, fazendo parte de seu projeto a alimentação vegetariana e a abstenção de bebidas alcoólicas.

Esteve pela primeira vez no Brasil em 1927 e retornou em 1929, após larga divulgação de seu movimento na Finlândia – o que trouxe cerca de 300 finlandeses até 1940. Toivo então compra a Fazenda Penedo, dando início ao desenvolvimento de seus ideais.  Hoje Penedo tem por vocação principal o turismo, oferecendo pousadas, restaurantes, artesanatos diversos e passeios  pelas trilhas do Parque Nacional do Itatiaia.

Estive em Penedo com minha esposa em dezembro de 2009.  Nos dias que sucederam nossa viagem busquei, inquietamente, um roteiro próprio, atrás das coisas de madeira que Penedo escondia em seus primórdios, no artesanato de origem finlandesa (tão peculiar em sua cultura),  à parte o circuito do consumo de souvenirs e outros produtos que oferecem em suas lojas.  Durante o curto período de uma semana estivemos na “trilha” de pessoas formidáveis que nos ajudaram a compor esta história, visitando suas oficinas e desvendando seus segredos.

Este artigo apresenta um breve resumo deste passeio na “nossa” Finlândia brasileira, um tanto injusto por sua redução, comparado às impressões que tivemos nestes lugares.

Martti Vartia


No restaurante Koskenkorva conhecemos o escultor finlandês Martti Vartia, também proprietário. Considerei esta ocasião o início deste roteiro, deslumbrado por dezenas de esculturas em madeira distribuidas pelo restaurante, entalhadas em raízes e troncos encontrados na região.

É um  trabalho realizado a partir da combinação do entalhe com elementos da natureza; surgem criaturas, como se lá já estivessem. Martti as descobre.

Martti mudou-se para o Brasil há mais de trinta anos, vinte e cinco destes morando no Rio de Janeiro. Começou seu trabalho como escultor após sua mudança para Penedo, há nove anos. Por isto talvez seja mais correto referir-se a Martti como um artista brasileiro de origem finlandesa, absolutamente adaptado em nossa cultura e natureza.

Sua oficina é composta de ferramentas manuais simples, como goivas, formões e lixas. De fato, suas ferramentas principais são as suas próprias mãos.

Após longa conversa com forte sotaque finlandês recebemos várias dicas sobre outras coisas de madeira a visitar…

Timo Aaltonen

Foi na pousada Arboretum – a primeira pousada formal da região – que seus proprietários, o simpático casal Otávio e Vanessa Miranda contactaram seu amigo Timo Aaltonen para visitarmos sua oficina. Com sorte Timo e sua esposa Eliana, que dividem sua vida entre Rio e São Paulo, estavam presentes e nos recepcionaram. Um privilégio.

Timo Aaltonen é o autor do livro Sauna Finlandesa (Ed. Edicon), o único do gênero na língua portuguesa. Finlandês, veio para o Brasil com apenas seis anos de idade.  É engenheiro de formação, e nas horas vagas um artesão extremamente habilidoso, não havendo em seu trabalho lugar para imprecisões. Pratica marcenaria, carpintaria, entalhe; construiu sua casa, sua sauna, móveis e é um importante colaborador do Museu Finlandês, sendo o autor do busto de Toivo Uuskallio (primeira foto do artigo) e do próprio balcão da recepção (próxima foto).

Sua oficina contém uma diversidade enorme de ferramentas manuais, de formões usinados e temperados por ele mesmo, e entre as máquinas estacionárias uma chamou a atenção; sua serra de fita, toda feita de madeira, funcionando perfeitamente. Timo comenta:

“Esta  serra de fita  foi feita pelo meu grande mestre e vizinho já falecido,  o Johan Faulstich, conhecido como João Alemão, um gênio da artesania”.

Sobre a bancada (construída pelo próprio Timo)  uma Swedish Carving Axe, um tipo de machadinha própria para o entalhe artístico, usada em suas esculturas.  Belíssima ferramenta, feita pelo artesão Lennart Pettersson, representado na foto do livro The Axe Book.

Uma de suas dicas foi visitarmos a oficina de seu amigo Cláudio José de Souza, um dos marceneiros mais requisitados da região de Penedo. Então, no dia seguinte…

Cláudio José de Souza

Em Penedo seu trabalho é notável, na marcenaria dos restaurantes e na carpintaria das pousadas. Cláudio e demais marceneiros que trabalham em seu galpão praticamente abastecem o distrito e regiões vizinhas.

É mineiro legítimo, e extremamente generoso. Foram horas de conversa sobre seu trabalho, sobre madeiras, ferramentas e personagens locais. Trabalha com madeira desde 1974, e aprendeu através de mestres severos, que não perdoavam erros. Como marceneiro e carpinteiro é rápido e preciso,  e reproduz móveis com perfeição. É versátil, utiliza madeiras maciças, compósitos e ferramentas estacionárias e manuais diversas.

Entre as estacionários destacou-se em sua oficina uma antiga serra de fita belga, da marca Danckaert. Segundo Cláudio esta máquina funcionava originalmente com roda d’água. Seu volante possui 1 metro de diâmetro, e aceita  fita de até duas polegadas de largura. Uma gigante.

Uma peça curiosa: este gabarito para abrir caixas na furadeira horizontal. Sobre a peça fixa-se os montantes,  onde é feita a perfuração para venezianas de paleta americana. Uma peça tão estética quanto funcional.

Ganhei nesta visita duas plainas de cepo – uma de afagar e um guilherme. Não é preciso dizer o quanto fiquei contente com estes presentes…

Museu Finlandês

Foi no Museu Finlandês da Dona Eva que encontramos uma grande coleção de artesanatos típicos, representando a história e a cultura finlandesa de toda a região deste país. À parte, é  impressionante o artesanato de madeira, principalmente feito com madeira de bétula, onde se aproveita desde a casca ao cerne.

PUU – Madeira (texto extraído de uma vitrine do museu)

“Os objetos de madeira são fabricados na Finlândia desde a antiguidade. A madeira da árvore bétula (KOIVU) era usado para objetos decorados com perfurações. O abeto (KUUSI) era usado para objetos maiores. O junípero (KATAJA) era usado para canecas e vasilhames diversos. No final da idade média começou o uso do torno para trabalhar a madeira e aumentou a produção de objetos para o lar.”


“Uma casa finlandesa possuia cerca de 50 objetos diferentes de madeira, tais como canecas para água e cerveja, pratos, travessas, baldes, bacias, vasilhas para manteiga e creme de leite, colheres, conchas, facas, rolos de pastel, cantil para água e outros objetos para cozinha.”

“Com o início da indústria de porcelana os objetos de madeira foram sendo substituídos, mas os finlandeses ainda apreciam e usam objetos de madeira, especialemtne na sauna, onde uma caneca de madeira é usada para jogar água nas pedras, e nas casas de campo onde usam as canecas para água e cerveja e facas de madeira para passar manteiga no pão.”


“Os artistas modernos não esqueceram a madeira. A Finlândia produz objetos variados de madeira, tais como enfeites, brinquedos, bijuterias, alguns exemplos dos quais podem ser vistos aqui no museu. Também temos objetos antigos de madeira, usados pelos finlandeses no passado.”

Na foto seguinte o “Cuco da Carélia”, esculpido com faca em um único pedaço de madeira.

“A madeira também é usada para construção de móveis e casas. A Finlândia é uma grande produtora e exportadora de casas pré-fabricadas de madeira.”


“Outra grande aplicação da madeira é a fabricação de celulose e papel, importante produto de exportação da Finlândia. A celulose finlandesa é fabricada a partir dos abetos e pinheiros que permitem a produção de celulose de fibra longa de excelente qualidade para fabricação de papéis especiais, como o papel vegetal usado na engenharia, papéis para revistas e belíssimos guardanapos, papéis especiais para filtros e muitos outros.”

Esta pequena faca é típica para o trabalho em madeira, entre outras utilidades. Sua bainha e sua lâmina são ricamente ornamentadas.

A Finlândia possui também enorme tradição na tecelagem. Entre outras coisas de madeira as rocas e os teares tradicionais representam um antigo e sofisticado trabalho em madeira, na construção de máquinas para a produção de fios e tecidos.

Esta roca mostra um fino trabalho de tornearia, certamente uma das peças mais belas do museu.

Em Penedo a tecelagem é continuada por diversos artesãos, mas principalmente representada pela finlandesa Eila Ampula (1916 – 1996), uma grande artista da tecelagem. Seus trabalhos são encontrados em toda Penedo, além de influenciar o trabalho de outros artesãos.

Estes  Pescadores, de Eila Ampula, faz parte do acervo de Martti Vartia.

No atelier Kielo

Kielo é uma típica flor da Finlândia, símbolo deste país. Em Penedo também é o nome do atelier de Rodrigo, O Tecelão – um artesão completo em seu ofício. Rodrigo construiu o seu primeiro tear há 25 anos, no qual tece até hoje, e também possui uma bela coleção destas máquinas em seu atelier, todas em funcionamento.

Na foto o detalhe em madeira entalhada de um tear alemão.

O tear seguinte,  construido por Rodrigo, foi feito aos moldes do tear típico finlandês. De ipê e aroeira, madeiras duras e extremamente resistentes.

De todas as rocas que já vi esta é a mais arrojada, a mais moderna. Alguma semelhança com o exemplar do museu?…

Do fio da roca ao tecido do tear – um sistema pleno de artesania.

Segundo Rodrigo, este tear – o maior entre os de sua coleção – é uma versão moderna dos teares suecos e portugueses. Seu design influenciou a construção dos teares mineiros no período colonial.

Com o nosso tempo esgotado fizemos desta a última mostra das coisas de madeira em Penedo. Foi pouco;  ficou a sensação de apresentar apenas um indício, entre muitas histórias e segredos que este lugar ainda tem a oferecer.

Agradeço aos que generosamente se dispuseram para a construção deste artigo. Ao Museu Finlandês da Dona Eva, pelo seu precioso acervo.

Diego de Assis

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.


Anúncios


One Response to “na Finlândia brasileira”

  1. 1 Mario

    Obrigado por compartilhar, uma aula de história e cultura…
    Me deixou mais apaixonado pra aprender a trabalhar com madeira!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: