Roscas de madeira

12fev11

Cossinete arquivo PDF

 

Para se fazer roscas de madeira é necessário utilizar basicamente um jogo de ferramentas: o cossinete, para fazer a rosca externa, e o macho, para fazer a rosca interna. No mercado brasileiro, até este momento, existe rosqueadeiras manuais apenas para metais ou tubos de PVC, impróprios para madeira. Em minha experiência utilizei diversas ferramentas alternativas, mas nenhum resultado foi satisfatório. Os cossinetes para metal fazem uma rosca frágil e quebradiça na madeira, embora o macho para abrir a rosca funcione bem. Utilizar uma porca comum como um cossinete parece uma boa alternativa, a exemplo de alguns vídeos vistos na Internet, mas não são práticos como parecem.

Então, de acordo com as antigas técnicas de construção, recorri aos mestres, entre os principais Roy Underhill, que além de seus fantásticos vídeos, descreve em seu livro The Woodrigths Workbook  a construção e os segredos destas ferramentas. Outra fonte  importante está no livro Le Menuisier Ébaniste, de André Roubo, que possui uma perfeita descrição das rosqueadeiras, acompanhada de uma belíssima gravura, cuja edição data do ano de 1774. E, para compreender os segredos da têmpera dos metais, Alexander Weygers, em seu livro The Complete Modern Blacksmith, ensina como tornar o metal resistente e tenaz, através de técnicas simples e acessíveis.

 

Com estas e demais referências comento, neste artigo, as técnicas de fabricação das rosqueadeiras manuais, como alternativa barata, feita com sucata e sobras de madeira, tão eficientes como as que se faziam há séculos atrás.

Primeira ferramenta: o “macho”

Para abrir a rosca do cossinete, o macho deve estar pronto. Foi feito com um parafuso ordinário de 1”de diâmetro, de oito fios por polegada, rapidamente usinado com esmerilhadeira.

Primeiro o parafuso foi envolvido com fita crepe e marcado com caneta hidrocor. Para um melhor desempenho desta rosqueadeira, estes rasgos foram abertos com ligeira inclinação, no sentido do corte, conforme mostra a imagem seguinte.

Depois, para retirar as rebarbas do metal, o parafuso foi lixado manualmente, abraçado com uma folha de lixa fina para metal, no sentido inverso ao aperto – para “cegar” a ferramenta de um lado e afiar do outro. Assim, quando o macho é retirado, a rosca fica mais preservada.

 

Atravessei a cabeça do parafuso com uma haste, conformando um punho próprio. Para perfurar o metal é necessário banhar a peça com óleo, o que resfria e evita o desgaste da broca.

 

O cossinete: modelando a faca

Dentro da pequena caixa de madeira fica alojada a faca em forma de “V”, um pequeno bite que entalha a rosca, transformando um roliço num parafuso. Esta faca deve ser de aço carbono, para poder receber a têmpera e adquirir a resistência necessária para se fazer um gume. Aços com baixo teor de carbono não são capazes de receber a têmpera, embora possam ser cementados com a aplicação superficial de carbono.

Utilizei um pedaço de uma lima velha. As limas são feitas de um aço muito bom, com alto teor de carbono, e se prestam para diversas ferramentas de corte, como goivas e formões. Existem diversas sucatas com alto teor de carbono que podem ser utilizadas, mas como medir este teor?



Um teste rápido é esmerilhar o metal e observar suas faíscas. Um aço com alto teor de carbono expele muita faísca, bastando tocar o esmeril para haver uma “explosão” . Ao contrário, um aço com baixo teor de carbono expele poucas faíscas. Nas imagens comparo um parafuso ordinário com baixo teor de carbono com a peça proveniente da lima velha.

Outro teste é aquecer o metal até o ponto não magnético (rubro), banhar imediatamente a peça em óleo ou água e tentar utilizar uma lima sobre a peça. Se, após o endurecimento do metal a lima deslizar, como se estivesse passando sobre vidro, é sinal que o metal possui alto teor de carbono, por isso pode ser temperado. Para saber se o metal está no ponto não magnético, basta encostar um ímã enquanto o metal ainda estiver rubro. Neste ponto o metal  perde atração.

Então, num forno improvisado de tijolos expus o metal ao fogo até enrubescer, ao ponto não magnético. Deixei a peça esfriar naturalmente; assim o metal “relaxa”, permitindo ser facilmente trabalhado.

Para abrir a faca em forma de “V”, fixo a peça na morsa e começo com um ligeiro corte que irá conduzir a lima triangular. Após este corte, a peça é usinada na parte externa, até chegar em sua forma. É interessante notar que o metal está muito maleável, sendo impossível fazer um fio.

A têmpera – endurecendo o metal

Com a peça modelada, preparo o maçarico e a aqueço novamente até o ponto não magnético, rubro, resfriando-a imediatamente em água. Nesta experiência utilizei água sem problemas. Também é recomendado utilizar óleo, pois o resfriamento causa um choque térmico mais “suave”, e o interior do metal se torna menos rígido – e por isso torna o metal mais tenaz.

 A água pode eventualmente criar fissuras, se a estrutura do metal não suportar o choque térmico. Neste momento o metal está duro e quebradiço como o vidro, e sujo de escória.

A têmpera – revenindo o metal

O passo seguinte é polir o metal, para que o espectro de cores seja visível durante a têmpera. Após o polimento retornei a peça ao fogo, mas de forma controlada, atento ao espectro  que se formaria à medida do aquecimento. O fogo deve tocar a parte oposta ao gume, de forma que o espectro ”caminhe” até o gume. O recozimento – ou revenido – deixará o metal duro o suficiente para receber um fio. “Relaxamos” um pouco o metal desta forma. Esta parte é a mais delicada, pois se passar da cor desejada todo o processo precisa ser refeito.

O espectro de cores indica a temperatura aproximada: a temperatura mais alta é a que está mais próxima da chama, na cor azul-escuro, a mais ou menos 640°C. Cada cor do espectro corresponde a uma dureza específica para o aço. No caso da faca do cossinete, deixei aproximar o gume da faca na cor quase púrpura (peacock), na ordem dos 540°C. Esta é a cor recomendada para as ferramentas de corte delicado, como pequenas goivas. No momento que esta cor chegou ao gume, resfriei a peça rapidamente na água.  Agora a faca está pronta para receber o fio.

É certo que para o domínio da têmpera dos metais através desta técnica rudimentar é preciso experiência e muita observação. Como comenta  Alexander Weigers, do livro The Complete Modern  Blacksmith,”… a vantagem de quem constrói ferramentas é saber que a próxima será ainda melhor!”

A caixa do cossinete

De acordo com as dimensões dadas no livro Le Menuisier Ébaniste, fiz um desenho simplificado, dispensando alguns detalhes, como os punhos torneados e o ornamental orifício de entrada de material.

O parafuso que utilizei contém oito fios por polegada – o que representa, para parafusos de metal, um passe grosso (passe é a distância entre as cristas de um parafuso). Para parafusos que exijam muita tração e movimentos constantes – como o parafuso de uma morsa de bancada -, é necessário uma rosca bem grossa, com passes distantes. Existe uma variedade de passes, mas é preferível passes grossos para parafusos de madeira, por serem mais resistentes.

As madeiras utilizadas devem ser preferencialmente duras, pois uma madeira macia pode perder a rosca. Madeiras como Jatobá, Tauari, Peroba-de-campos, Ipê e Roxinho são madeiras ótimas para confecção da caixa do cossinete. Destas utilizei o Jatobá (Hymenaea courbaril), madeira dura e muito versátil.

A caixa possui uma tampa, que guarda a faca e conduz o roliço no início do corte. Depois de aparelhar a peça, a tampa é separada. As partes são unidas por parafusos em diagonal (o desalinhamento dos parafusos evita que a madeira rache). Após esta fixação, é feito o furo na tampa, com broca chata, pua ou Forstner, controlando sua excursão com uma fita enrolada na broca (utilizei neste caso uma broca chata de 1”). A broca deve ultrapassar ligeiramente a tampa, perfurando o início da caixa. Em seguida a broca é trocada por uma menor, de 7/8”, para perfurar a caixa até atravessá-la. A relação entre os furos é exatamente esta: 1/8 entre as brocas que se vai utilizar.

Após a perfuração é aberta a rosca. Melhor passar antes um pouco de vaselina sólida no furo.

Feita a rosca no cossinete, o próximo passo é marcar a peça e localizar o momento exato para encaixar a faca. A faca pode ser acomodada com o auxílio do próprio macho, encaixando seu gume em sua rosca. Se por acaso a faca ficar mau posicionada, pode ser regulada com os parafusos que a fixam. No desenho de André Roubo, sugere-se utilizar três parafusos, mas nesta experiência achei necessário apenas dois. Roy Underhill sugere uma forma melhor,  que é utilizar um parafuso em forma de “L” (escápula), cujo aperto faz-se na parte externa da caixa.

Com a faca fixada a ferramenta é testada e regulada. A tampa recebe os furos para encaixar a cabeça dos parafusos da faca.

 Por último os cortes curvos são feitos na serra de fita (opcional), a caixa é lixada e suas arestas retiradas. Ferramentas prontas, vamos à sua utilização.

Dispositivo de fixação

Entre algumas espécies de madeira que experimentei para abrir rosca, a que apresentou melhor resistência ao corte foi a Itaúba preta (Mezilaurus itauba). Acredito que suas primas da família Lauraceae, como as imbuias, louros e canelas também sejam boas madeiras para este propósito.

Uma boa opção é utilizar roscas avulsas, que podem ser aplicadas em praticamente qualquer espécie de madeira. Este parafuso contém uma parte lisa, a cavilha, que é fixada com cola.

 Para sua fabricação, após abrir a rosca num roliço, este deve retornar ao torno para desbastar as cavilhas. Num pequeno roliço se produz várias peças.

Desta forma a montagem e desmontagem de móveis, brinquedos  e utensílios pode ser prática e segura. Para quem quiser construir o seu próprio cossinete, baixe o arquivo PDF no início do artigo. Bom trabalho!

Diego de Assis

 

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.

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One Response to “Roscas de madeira”

  1. 1 Mario

    Que riqueza de informação e referências!

    Muito obrigado por compartilhar!


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