na Amazônia paraense

16ago11

Localizada próximo a Santarém (PA), na Reserva Extrativista Tapajós/Arapiuns, Surucuá é uma das sete comunidades ribeirinhas que participa das OCT – Oficinas Caboclas do Tapajós, projeto assinado pelo IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. As OCT desenvolvem movelaria artesanal que expressa a cultura tapajônica, em bancos zoomorfos, no aproveitamento das formas naturais dos troncos e no uso de diversas espécies nobres de madeira, como a Sucupira amarela (Bowdicha nitida), o Jacarandá do Pará (Dalbergia spruceana), o Cumarú preto (Dipteryx odorata) e a Muirapixuna (Chamaecrista scleroxylon). A extração das madeiras é devidamente manejada e licenciada, e troncos mortos também são aproveitados.

Em fevereiro deste ano estive em Surucuá por uma semana, comunidade escolhida que reuniu artesãos de outras comunidades para participarem da “Oficina de Montagem e Desmontagem de Móveis”. O principal objetivo foi ensinar a fabricação de roscas de madeira, para que seus móveis pudessem ser facilmente transportados e montados pelo próprio comprador. Fui convidado para aplicar esta oficina, e após o seu preparo parti para Amazônia paraense.

Neste artigo descrevo o desenvolvimento desta oficina e demais experiências junto a este grupo, que promoveu tantas horas prazerosas de trabalho e aprendizagem.

Por que roscas de madeira?

Um antigo desejo das OCT é tornar prática a montagem de seus móveis, simplesmente rosqueando suas peças. Com este propósito, o treinamento foi dividido em duas partes: a primeira, ensinar a fabricação das rosqueadeiras. Reproduzir esta antiga tecnologia seria uma vantagem, por ser barata e possível de se construir com ferramentas simples, sobras de madeira e sucata. Outra vantagem seria a possibilidade de replicar a ferramenta, havendo esta necessidade. Assim, diferentes diâmetros de rosca podem ser fabricados.

A segunda parte foi ensinar a aplicação da rosca, como um dispositivo de montagem independente, pois não convém fazer a rosca externa na própria perna de um banco ou de uma mesa. No entanto, na oficina de Surucuá ainda se faz necessário cuidar de questões técnicas que antecedem a perfeita confecção destas peças, como a secagem adequada das madeiras e a utilização de um torno, improvisado durante esta oficina com uma furadeira elétrica. As madeiras empregadas normalmente são duras, de difícil secagem, tornando-se estáveis somente após meses ou anos de secagem natural. A madeira úmida ocasiona diversos defeitos como descolagens, rachaduras e folgas de encaixe.

O mobiliário indígena

Segundo Tilde Canti, autor do livro “O Móvel no Brasil – Origens, Evolução e Características” (ed. CGPM, 1985),

 As diversas tribos aqui encontradas apresentavam diferentes estágios de civilização. Algumas, ainda nômades, viviam ao relento, dormindo sobre folhas, e outras ao sul conheciam a técnica da tecelagem, e dormiam em camas semelhantes à cama europeia. Mas observou-se que a rede, como cama, era utilizada pela maioria das tribos que conheciam a técnica da tecelagem.”

“Os bancos também são frequentes, e se apresentam de vários tipos, desde os toros feitos de assento aos bancos trabalhados em uma só peça de madeira, com decoração geométrica em vermelho ou preto, alguns em forma de animal. Em certas tribos esta peça era privilégio dos homens, em outras tribos privilégio do chefe ou reservados unicamente ao cacique. Bancos de finalidade religiosa também foram utilizados por diversas tribos.” (prancha XXII – Bancos Indígenas. Figs. 1 e 2 – bancos em forma de animais (pássaros), do Alto Xingu. Fig. 3 – desenho do assento do banco 1, em branco e preto. Fig. 4 – banco em forma de animal, Posto Louzada, Alto Xingu. Pg. 75).

O mobiliário das Oficinas Caboclas do Tapajós evoca estas origens, conformando um estilo próprio. Seu principal processo de fabricação é o entalhe, sendo a antiga enxó uma das principais ferramentas utilizadas.

Confeccionando as rosqueadeiras

De acordo com as técnicas comentadas no artigo anterior (onde as descrevo com maiores detalhes), iniciamos nosso trabalho fabricando a rosqueadeira interna (macho), com um parafuso de 1″ de diâmetro e oito fios por polegada. Em alternativa à esmerilhadeira, utilizamos serra de arco e lima triangular para abrir os cortes.

Em seguida aconfeccionamos a faca da rosqueadeira externa (cossinete) com um pedaço de lima velha destemperada, também com serra de arco e lima triangular. Com um maçarico a gás prosseguimos com a têmpera, utilizando água para refrigeração.

Para revenir o metal limpamos a peça e a aquecemos até a cor violeta cobrir seu gume. Concluimos esta etapa com sua afiação.

Com o macho e a faca do cossinete prontos, iniciamos a confecção da caixa do cossinete. Escolhemos um cepo de sucupira amarela, madeira extremamente dura, e utilizando serra de costa e plaina manual retificamos esta peça.

Perfuramos a caixa, abrimos a rosca e a entalhamos para acomodar a faca em seu interior. Para fixar o cepo no banco utilizamos um antigo barrilete.

Tampamos o cossinete, ajustamos a posição correta da faca e o testamos.Utilizamos apenas uma raspilha para o acabamento. Durante a semana foram fabricados vários jogos de rosqueadeiras, para que fossem utilizados e replicados em cada comunidade.

Para fabricar a rosca é necessário um roliço de 1″ e madeira que se preste para este serviço, como a Itaúba – conforme comentado no artigo anterior. Nesta região faz-se quase tudo com Itaúba e suas variedades, das embarcações às casas. É madeira quase incorruptível e comum no Pará. Então, com uma furadeira elétrica e algumas sobras de madeira montamos um torno; entalhamos o roliço e os pinos das roscas, para fixá-los nas extremidades dos pés de um banco de cumarú confeccionado especialmente para este fim.

Com os dispositivos de montagem prontos, preparamos os pés do banco, perfurando suas extremidades.

Abrimos a rosca interna no assento do banco, e nos pés fixamos cada rosca com cola PVA e um contra-pino de madeira como reforço. Neste momento, após cinco dias de atividades, concluimos o nosso treinamento.

O Boto e o Tracajá

Paralelo a este treinamento, acompanhei na oficina a confecção de dois bancos zoomorfos, um em forma de Boto e outro em forma de Tracajá – uma espécie de cágado, comum na região amazônica.

Após a marcação a peça é perfurada – neste caso, para a confecção do banco Boto foi utilizada uma “costaneira”, parte externa do tronco da árvore. Estes furos servem para conduzir o corte com a motosserra.

Com muita habilidade as sobras são separadas, apenas com a ponta da motosserra. Em Surucuá a motosserra é uma ferramenta fundamental em todos os serviços, inclusive nos serviços de oficina. As ferramentas elétricas são alimentadas por um gerador a gasolina.

Com os recortes preliminares prontos, a peça é levada ao banco e entalhada com enxó, formão e goiva. O trabalho é feito por diversas mãos.

Com uma lixadeira de disco elétrica, lixas manuais e raspadores o trabalho de modelagem é finalizado. É interessante notar os belos efeitos causados pela combinação do cerne e do alburno no assento. O acabamento é feito com seladora de nitrocelulose.

Seguindo o mesmo processo de fabricação o banco Tracajá também é confeccionado. Os pés de ambos os bancos são entalhados com enxó.

O banco Tracajá (de sucupira amarela) troquei pelo jogo de rosqueadeiras que levei para esta oficina. Foi um excelente negócio!

Coleta de madeira

No último dia desta semana de trabalho fomos à floresta coletar madeira. Próxima às margens do rio Tapajós a floresta é de várzea, onde ocorrem enchentes periodicamente. Não muito distante da comunidade fomos beneficiar e coletar peças de sucupira amarela, de uma árvore derrubada há algum tempo.

Depois de acomodar o tronco, a marcação é feita com um barbante embebido em óleo queimado. Serão retirados pranchões deste tronco, peças com aproximadamente 70mm de espessura.

As peças são marcadas novamente, e o alburno é retirado. Para os cortes longitudinais é utilizada uma correia apropriada.

Além de beneficiar os troncos de sucupira, derrubamos este cumarú com raízes em forma de sapopema. Para o abate, a correia da motosserra é trocada pela correia de cortes transversais. Derrubar uma árvore deste porte é perigoso, além de poder danificar árvores vizinhas. O corte é feito lentamente, até se ouvir os primeiros estalos; então nos afastamos e esperamos a árvore cair.

Então as peças foram transportadas até a oficina, onde permanecerão secando. São “tabicadas” – separadas por tabiques, ou réguas – para haver ventilação e evitar o apodrecimento.

Destas madeiras serão confeccionados diversos móveis, conferindo uma importante fonte de renda para a comunidade e a divulgação deste belíssimo trabalho, genuinamente brasileiro.

Agradeço aos homens que participaram desta Oficina, conhecedores dos segredos da floresta e que muito me ensinaram.

Aos responsáveis diretos por esta realização: a antropóloga Luciana Carvalho e seu marido Alexandre Nazareth, amigo de muitos anos que retirou-me de minha modesta oficina e trouxe-me para a imensidão da floresta amazônica.

Diego de Assis

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.

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