Construindo Guerrit Rietveld

09dez11

Reproduzir as cadeiras de Rietveld em nosso Curso de Marcenaria significa uma série de valores agregados, a começar por sua importância histórica – reproduzi-las é participar desta história. Por princípio técnico-didático, construir cadeiras constitui um exercício completo de marcenaria. De acordo com o comentário de Domingos Marcellini, “a cadeira é o móvel mais difícil de se fazer, não sendo dos mais modestos, pela suta e pela pouca largura das peças que a compõe.” (Manual Prático de Marcenaria, ed. Ediouro, pg. 158). No entanto Rietveld intencionava facilitar a reprodução, seja pelo processo de fabricação industrial ou artesanal, através de técnicas simples de marcenaria. Seus móveis minimalistas aparentam a estrutura como um objeto ao avesso, uma denúncia e um estímulo para sua construção – como é o caso de sua linha de móveis “Krat”, confeccionados com madeiras de embalagens. Suas ideias foram extremamente arrojadas à sua época, tornando-se ícones da movelaria contemporânea.

Neste artigo apresento as principais etapas do processo de fabricação das famosas cadeiras Vermelha e Azul e Zig-Zag, reproduzidas a partir dos projetos originais reunidos no livro How to construct Rietveld Furniture (de Peter Drijver e Johannes Niemeijer, ed. Thot), e a versão alternativa da cadeira  Zig-Zag construída em compensado revestido.

Rietveld sentado em sua poltrona em frente à sua oficina (How to Construct Rietveld Furniture, ed. Thot, pg. 29)

Guerrit Thomas Rietveld (1888 – 1964)

Rietveld era filho de um marceneiro de Utreque (Holanda), e trabalhou na oficina de seu pai, onde adquiriu o conhecimento do ofício. Abriu em 1911 sua própria oficina de marcenaria, e mais tarde interessou-se também por arquitetura. Participou do movimento artístico holandês De Stjil (que literalmente significa “O Estilo”), fundado em 1917. O grupo baseava-se na “rigorosa precisão com que dividiam o espaço; pela tensão e pelo equilíbrio, alcançados com a assimetria; por seu uso das formas básicas e cores primárias; e pela máxima simplicidade de suas soluções.” ( Layout: o design da página impressa, de Allen Hurlburt, ed. Nobel, pg. 35). Rietveld procurou transformar as ideias do grupo a três dimensões; considerava indispensável que o mobiliário retornasse às suas formas básicas, como se os móveis nunca tivessem sido feitos. A cadeira deveria ser novamente concebida: deve ter seu assento, um encosto e algo que suporte estes elementos.

A cadeira Vermelha e Azul

Segundo Otakar Mácel, “a cadeira vermelha e azul de Guerrit Thomas Rietveld é reconhecida como o manifesto da estética De Stijl. Optando por formas simples, uma construção por módulos e recorrendo a cores primárias, este marceneiro de Utreque conseguiu criar uma peça de mobiliário moderna que personificava na perfeição os princípios estéticos do grupo neerlandês.”

Desenho original da cadeira Vermelha e Azul (How to Construct Rietveld Furniture, ed. Thot, pg. 24)

“Presume-se que a cadeira tenha sido criada em 1918, tendo em setembro de 1919 merecido destaque na revista De Stijl, em conjunto com a sua Cadeira de Criança. Ambas as cadeiras foram construídas com base no então recente método de aplicação de cavilhas, distinguindo-se a Cadeira Vermelha e azul pela sua forma mais simples e linear.”

“Os móveis de Rietveld dos anos 20 caracterizavam-se pela sua concepção de espaço muito própria e pela idéia de transparência, características que correspondiam aos ideais defendidos pela avant-garde funcionalista. O mesmo se aplicava à sua noção de produção industrial: Rietveld entendia que também a sua cadeira Vermelha e Azul podia ser fabricada industrialmente, na medida em que o material, as traves, as ripas e as tábuas podiam ser facilmente adquiridos no mercado e a construção não apresentava dificuldades maiores.” (Mobiliário Moderno – 150 anos de design, ed. H.F. Ullmann, pgs. 650, 651, 652).

Na oficina

Este exercício foi desenvolvido com o aluno Carlos Germano, oceanógrafo. Para a construção da cadeira Vermelha e Azul selecionamos maciços de freijó (cordia goeldina), madeira paraense extremamente versátil, própria para construção de cadeiras e móveis em geral. Originalmente o projeto sugere a faia (fagus spp.), gênero comum na europa para a construção de móveis.

Iniciamos o aparelhamento dos maciços com plaina manual nº5 e serra circular de mesa, conforme o padrão de medidas especificado.

Todas as peças da estrutura da cadeira são unidas com cavilhas de 15mm de diâmetro.Confeccionamos as cavilhas no torno, sendo necessárias vinte e duas unidades que, alinhadas, correspondiam a aproximadamente um metro de comprimento.

As peças foram cuidadosamente marcadas e perfuradas na furadeira de coluna, com broca Fostner. Os encaixes foram provados e marcados.

Para fixação das peças utilizamos cola PVA e grampos. É interessante notar que os grampos evitam a separação das peças por força da pressão hidráulica. Por isso as cavilhas prontas geralmente possuem ranhuras, o que facilita a expulsão do ar e do excesso de cola.

Uma vez conformada a estrutura, as peças do assento e do encosto foram recortadas na serra circular. Em princípio utilizamos compensado, mas mudamos para MDF, para obter uma cobertura com textura lisa.

Com cunhas fixadas sob o assento e o encosto, parafusamos estas peças.

Cobrimos o encosto e o assento com laca nitrocelulose, com o cuidado de revestir antes as bordas. Para a estrutura utilizamos verniz de nitrocelulose.

Achamos a combinação da estrutura em madeira aparente com os painéis coloridos tão atraente quanto a original. Então decidimos finalizar a cadeira nesta versão, a qual apelidamos de Vermelha e Azul e Freijó!

A cadeira Zig-Zag

Criada por Rietveld entre 1932 e 1934, a cadeira Zig-Zag foi composta com apenas quatro painéis maciços, fixados por parafusos combinados com encaixes de espiga e cunhas. Seu design também coloca em prática os mesmos princípios do movimento De Stijl, embora Rietveld tivesse rompido com o grupo em 1928. Suas linhas diagonais diferem da sóbria estrutura reta da cadeira Vermelha e Azul, cuja obra expressa os ideais do movimento De Stijl; a cadeira Zig-Zag é inquietante e instável – uma provocação aos sentidos.

Construída originalmente com maciços de carvalho (quercus spp.), em nosso curso de marcenaria optamos por versões em compensado revestido com folhas de freijó (cordia goeldina) e em maciços de peroba-de-campos (paratecoma peroba), de acordo com as dimensões do projeto original.

Versão original

Esta versão da cadeira Zig-Zag foi desenvolvida com o aluno Eduardo Acklas, produtor gráfico. Iniciamos a construção dos painéis aparelhando os maciços em pequenas tábuas, unidas com cavilhas e cola PVA.

Após o aparelhamento dos maciços, iniciamos a conformação dos painéis, cada um com três peças emendadas. Perfuramos as bordas com furadeira horizontal, e reforçamos a união com cavilhas.

Os painéis com emendas são mais estáveis; evitam o empenamento e rachaduras.

Com os painéis conformados e recortados, fizemos as espigas da união do assento com o encosto, utilizando a serra de mesa, com ligeira inclinação de 8º no batente do goniômetro, ângulo estabelecido para o encosto.

Em seguida fizemos os cortes das uniões do pedestal, com inclinação do disco de serra a 22,5º, cuja soma é igual a 45º.

Nas costas do encosto foi feito um pequeno entalhe para manipular a cadeira. Primeiro utilizamos a tupia de coluna para retirar o excesso de material, e em seguida terminamos o entalhe com formão e lixas.

Fizemos então as perfurações para a fixação de parafusos com porcas, utilizando a furadeira de coluna. É melhor escarear o maciço para o encaixe da cabeça do parafuso antes de transpassá-lo.

Na união do assento com o encosto encaixamos  as espigas e utilizamos parafusos com porcas redondas.

Antes de unir os painéis do pedestal e do assento, foram fixadas cunhas como reforço. Utilizamos cola PVA, e os parafusos com porcas dispensaram o uso de grampos.

Acertamos as bordas com plaina manual. As superfícies e as arestas lixadas com lixas de grã 150 e 220. Acabamos a cadeira com seladora de nitrocelulose e cêra, conferindo o aspecto natural da madeira.

Versão em compensado revestido

Esta versão foi desenvolvida com o aluno Carlos Alberto Nery, psicólogo. Diferente da versão com maciços, o compensado é um painel pronto para ser recortado.

A união do assento e do encosto foi feito com encaixes em rabo-de-andorinha apenas, confeccionados com serra manual e formão. Fixamos estes painéis com cola PVA e grampos.

As demais uniões fizemos com parafusos Mittofix (auto atarraxantes); escareamos a cabeça dos parafusos e cobrimos os furos com massa acrílica.

O revestimento é ordenado; as partes internas são revestidas antes da união dos painéis, utilizando cola de contato. Aparentemente esta é a diferença entre a versão original e em compensado revestido – nesta versão os parafusos que conformam a união entre as peças ficam escondidos, sob o revestimento.

Assim como na versão anterior, o acabamento foi feito com seladora de nitrocelulose e cêra.

Assim testamos sua estrutura!

Aos meus alunos agradeço a oportunidade de realizar este trabalho, que retornou meu saudoso tempo como estudante de Desenho Industrial, tempo de descobertas e grande fascínio pelos móveis de Guerrit Rietveld.

Diego de Assis

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.

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One Response to “Construindo Guerrit Rietveld”

  1. Um precioso documento de design e artesanato, além de um belo tributo a Rietveld. Parabéns a você e seus alunos!


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