Tage Frid no Brasil

24nov12

Entre os projetos de marcenaria praticados em nosso Curso certamente este foi um dos mais sofisticados, na sua técnica de construção e design. Foi um grande desafio construir um móvel de Tage Frid; ser preciso e fiel ao projeto do início ao fim significou tempo e esforço, com momentos de resignação e muito trabalho. Tage Frid – ícone da marcenaria americana – utilizava técnicas variadas, tradicionais e modernas, o que proporcionava aos seus alunos condições para atuar em qualquer oficina. Seu design de estilo escandinavo é arrojado e não dispensa detalhes,  devendo sempre ser bem resolvido na forma, na função e em suas proporções; segundo Frid, “Eu acho que a proporção – a relação correta entre as dimensões – é a coisa mais difícil de aprender. Muitos dos meus alunos têm o mesmo problema. Proporções inadequadas podem estragar um bom design.” (Tage Frid teaches woodworking – Furnituremaking, ed. Tauton, pg. 145)

Seguindo os passos deste velho mestre chegamos ao resultado satisfatório, de acordo com a descrição do seu projeto. Imaginamos o privilégio de quem o teve como professor.

Neste artigo mostro a construção do Banco de três pés (Three-legged stool) , projeto apresentado em seu livro “Tage Frid teaches woodworking – Furnituremaking, ed. Tauton, pg. 145 – 154“, exercício praticado com o aluno Eduardo Serra, arquiteto e marceneiro amador.

Tage Frid (1915 – 2004)
Tage (pronuncia-se “Tay”) Frid era marceneiro, designer e professor, e também foi editor e colaborador da revista Fine Woodworking, desde a edição nº 1 a nº 171. É o autor da clássica série de livros Tage Frid teaches woodworking, publicado pela editora Taunton.”

Foto da contracapa do livro Tage Frid teaches woodworking, ed. Tauton.

“Nascido na Dinamarca, Frid foi aprendiz de um mestre artesão chamado Gronlund Jensen, iniciando em sua oficina aos 13 anos de idade. Cinco anos mais tarde recebeu o status de oficial (journeyman). Seguiu cursando arquitetura de interiores, enquanto trabalhava numa oficina de marcenaria com seu estilo dinamarquês moderno – a sua marca registrada. Em 1948 Frid mudou-se para os Estados Unidos, convidado para trabalhar como professor na School for American Craftsmen, primeiro em Alfred University e, posteriormente, no Rochester Institute of Technology. Então, em 1962 Frid lançou o primeiro programa de nível universitário em Marcenaria e Design de móveis em Rhode Island School of Design, onde sua influência floresceu para o próximo quarto de século.”

Fonte:  http://www.finewoodworking.com/community/artistprofile.aspx?id=1094

O banco de três pés

Criada em 1982, originalmente feito de nogueira (walnut), Tage Frid construiu três versões da seu banco de três pés, modificando apenas o comprimento das pernas. No entanto, Frid condenava o design de bancos e cadeiras de três pés em geral, por oferecer riscos. Se uma pessoa sentada num banco de três pés inclina para um dos lados, este pode desequilibrar e tombar. Em seu design Frid evita esta falha, devido ao formato em “T” do seu assento: “O assento em forma de “T” contraria a tendência do banco de tombar, porque não existe área de assento na parte traseira para empurrar. O peso do corpo de quem senta está localizada sobre as duas pernas da frente, resultando num banco de três pés estável.” (Tage Frid teaches woodworking – Furnituremaking, ed. Tauton, pg. 145)

Foto do livro Tage Frid teaches woodworking – Furnituremaking, ed. Tauton, pg. 146.

Sentar-se com o encosto à frente também é uma opção, tão confortável quanto recostar-se. É levíssima e elegante, devido a sua extrema economia de material.

Na oficina

Escolhemos cedro (cedrela spp.) para construção deste banco, madeira leve e resistente, sempre “amigável” para os trabalhos de marcenaria. De forma geral, primeiro foram feitos os encaixes com as peças retas, e depois desta etapa cada peça foi modelada. Após o aparelhamento da madeira iniciamos sua construção conformando o assento em forma de “T”, com um encaixe de caixa e espiga. Tivemos um cuidado especial na marcação das peças, sempre considerando as perdas de material que haveria em sua modelagem.

Perfuramos o assento na furadeira de coluna, com seus devidos ângulos, testados anteriormente numa sobra de compensado. Em alguns momentos de sua construção utilizamos sobras para testar os encaixes, antes de executá-los nas peças – assim evitamos perdas desnecessárias.

Em seguida torneamos os pinos das pernas, para o encaixe no assento. Frid utiliza uma fresa para tornear estes pinos, instalada numa furadeira horizontal. Optamos por utilizar um torno, na falta da ferramenta sugerida.

Na união do encosto com o assento Frid utilizou um encaixe de rabo-de-andorinha (dovetail), garantindo extrema resistência. O ângulo entre o encosto e o assento é oblíquo, o que exigiu uma cuidadosa marcação.

Então fizemos os pinos do rabo-de-andorinha manualmente, utilizando serra de costa e formão para o entalhe.

Continuamos a confecção do rabo-de-andorinha na serra de mesa, inclinando a lâmina a 80º. A peça foi ligeiramente inclinada para trás, apoiada no batente preparado.

Em seguida conformamos a alça do encosto abrindo um furo na peça com a tupia de coluna, conduzida por um molde. A habilidade maior está na confecção do molde, onde a precisão é determinante para o resultado do trabalho.

Com a alça e o encaixe de rabo-de-andorinha prontos, terminamos o recorte do encosto na serra de fita, aproximando o aspecto final desta peça e da estrutura do banco.

Iniciamos a modelagem do assento conformando sua face côncava, utilizando primeiro a serra de fita para retirar a maior parcela de material, e depois a tupia de coluna para acertar o corte, conduzida sobre um gabarito.

Um complicador foi acompanhar a espessura irregular do assento, que aumenta em direção ao encosto a partir de sua borda frontal; assim como o encosto, o assento também possui a forma de cunha. Para este efeito inclinamos ligeiramente a peça, o que gerou um corte em forma de trapézio, como mostra a foto acima.

Trabalhamos primeiro a face côncava e depois a face convexa, garantindo nesta ordem a estabilidade da peça sobre a bancada em todos os momentos de trabalho. Utilizamos uma plaina curva #113 para acertar o corte da face convexa, uma outra opção para modelar as curvas do assento.

Antes de modelar as pernas do banco, marcamos os pontos de encaixe das travessas de acordo com suas posições e as perfuramos na furadeira de coluna.

Na serra de mesa iniciamos a modelagem das pernas, utilizando um gabarito para gerar a forma de cunha.

As pernas possuem uma seção elíptica. Para marcação das peças providenciamos um gabarito, recortado numa sobra de papel couro.

Marcamos as pernas e retiramos algum material com tupia, conforme sugere Frid nesta etapa do trabalho.

Com um rabote (plaina nº5) retiramos a maior parte de material. Para controlar este tipo de desbaste, convém primeiro conformar bordas retas e uniformes ao redor da peça, e depois retirar as arestas de forma gradativa. Em seguida utilizamos raspilha e lixas para sua finalização.

Após a modelagem das pernas pudemos fazer as travessas, últimas peças da estrutura do banco. Assim como as pernas, iniciamos com o torneamento dos pinos, cuidando constantemente de seu diâmetro durante o exercício.

Primeiro fizemos a travessa que une as pernas da frente. Recortamos a travessa na serra de fita, deixando a marcação bem visível para acertar o corte.

Desbastamos a travessa com um boxequim (spokshave), cuidando de sua simetria com um molde. Com esta travessa pronta conformamos a travessa perpendicular, semelhante em sua forma de fuso.

Montagem e acabamento

São quinze peças independentes que compõe o banco, considerando também suas cunhas. Para sua montagem primeiro conformamos o assento com o encosto, e por fim unimos as pernas. Utilizamos cola PVA em sua montagem.

Após a colagem e o acerto do rabo-de-andorinha providenciamos a união da caixa e espiga. Nesta ordem pudemos acertar antes as suas bordas; de outra forma – fixando todas as peças de uma única vez – não haveria passagem para acertos com a plaina manual.

Os pinos dos pés e das travessas são apertados com cunhas, que penetram num corte feito ao longo dos pinos. Fizemos estes cortes na serra de fita contra um espelho, para ver claramente o momento que a lâmina toca a peça.

Os pinos foram apertados no sentido longitudinal em relação à fibra da madeira do assento, como mostra a foto acima; assim se evita possíveis rachaduras. Após a secagem da cola as sobras foram serradas e acertadas com formão e lixas. As arestas foram retiradas, e todos os acertos necessários feitos. Pequenas fendas e furos foram tapados com massa acrílica no tom do cedro.

O acabamento foi feito com seladora e verniz à base de nitrocelulose, e polido após a secagem.

Trabalho concluído. Reproduzir o banco de três pés de Tage Frid foi muito gratificante, sendo possível apenas pela habilidade de alunos com maior experiência. A Eduardo Serra dirijo este crédito, e aos demais que crescem nesta oficina, criando boas histórias para contar!

Diego de Assis

                                                      ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a acidentes graves.

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One Response to “Tage Frid no Brasil”

  1. 1 Eduardo Serra

    Uma história bem contada, mas antes de tudo, bem vivida.
    Ao mestre, minha reverência.
    Ao amigo, meu abraço.
    E a Tage Frid, nossa humilde homenagem.


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