Construindo com Alvar Aalto

23ago18

Criador de ícones da arquitetura e do design modernos, o finlandês Alvar Aalto foi um dos pioneiros na fabricação seriada de móveis compostos a partir de um plano bidimensional, conformando peças curvas feitas de madeira laminada. Formas sinuosas e orgânicas exibem a plasticidade da madeira em móveis racionais e de poucos elementos.

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Neste artigo, apresento o projeto desenvolvido pelo designer Thiago Pires, aluno do curso Coisas de Madeira, elaborado a partir de imagens da poltrona 402, de Alvar Aalto. Exercício com propósito didático, tratou-se de uma experimentação das possíveis técnicas de construção em oficina convencional.

 

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Exposição de mobiliário de madeira laminada, diversos autores. MoMA, 2013

maquete

Modelo de cadeira, molde e folha de madeira compensada. Peter Danko (norte-americano, 1949). MoMA, 2013

 

Hugo Alvar Henrik Aalto (1898 – 1976)

A cadeira Paimio, provavelmente a mais conhecida peça de mobiliário projetada por Aalto, leva o nome da cidade localizada no sudoeste da Finlândia, para a qual projetou um sanatório de tratamento de tuberculose, incluindo os seus móveis. A estrutura da cadeira consiste em duas alças fechadas de madeira laminada, formando braços e pernas, e o assento numa folha delgada de compensado curvado em forma de pergaminho. Foi inspirada na cadeira Wassily, de Marcel Breuer.  Para esta cadeira, Aalto escolheu a madeira de bétula, espécie nativa notável por sua elasticidade e seu belo aspecto natural.

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Cadeira Paimio, 1931 – 32. MoMA, 2013

Esta cadeira foi cuidadosamente projetada para atender aos pacientes do sanatório, que convalesciam de problemas respiratórios. Leve e resistente, foi uma das protagonistas da produção seriada de peças de madeira laminada e curvada.

Em 1935, a empresa Artek foi estabelecida na Finlândia para distribuir móveis de madeira projetados por Aalto e sua esposa, a arquiteta e designer Aino Aalto. A maioria de seus projetos permanece em produção.

Aina e Aalto

Aino e Alvar Aalto

Seu design influenciou artistas como o casal norte-americano Charles e Ray Eames, que por sua vez também criou um importante repertório de móveis de madeira laminada.

 

Na oficina

Este projeto teve dois momentos principais: a construção do modelo e a construção do protótipo. O modelo foi confeccionado em escala natural, de compensado. Serviu para confirmar e reajustar as informações previstas no desenho técnico, como a sua ergonomia e demais medidas.

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Modelo de compensado.

E antes de iniciarmos o protótipo, foi preciso construir uma fôrma para modelar as laterais (arcos) da poltrona. A precisão do encaixe das peças positivo/ negativo é determinante em relação à qualidade da peça modelada, não podendo haver frestas entre as lâminas durante colagem, o que comprometeria todo o trabalho.

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Originalmente, as cadeiras com peças laminadas de Aalto são de bétula (betula spp), madeira flexível, natural na Finlândia e em diversas regiões do hemisfério norte. As espécies de clima tropical não são tão adequadas para este propósito como as de clima temperado, por isso não encontramos boas madeiras no comércio brasileiro. Optamos pelo tauari (couratari spp), por recomendação de algumas  fontes bibliográficas. O tauari possui grã direita, boa conformação e aspecto uniforme, o cerne é praticamente isento de nós e oferece excelente colagem.

Arquivo 30-08-17 17 53 19

Uma importante condição é que os cortes sejam radiais – perpendiculares aos anéis de crescimento -, o que garante mais resistência da fibra ao curvar a lâmina. Manter a ordem das lâminas também garante a retidão das peças conformadas.

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As lâminas foram extraídas de um pranchão, com aproximadamente 40 cm de largura. Ao final, tivemos uma incrível perda de 2/3 do volume total, devido ao número de cortes. Cada lâmina obteve  2 mm ao final do aparelhamento, passando também pelas plainas. Precisamos utilizar 15 lâminas, um número maior em comparação a original, que utiliza apenas seis lâminas, pois o tauari, embora resistente, é madeira pouco flexível.

 

Conformação dos arcos

Com a fôrma e lâminas de tauari prontas, iniciamos a colagem das lâminas. Antes fizemos um ensaio, conformando as lâminas sem cola, assim pudemos estimar o tempo para esta operação, limitado pela secagem da cola. Utilizamos cola de alta secagem, a cola vinílica Titebond III. Outra opção seria utilizar cola de uréia-formol, que proporciona ótima cristalização da cola. Embora a Titebond seja uma cola vinílica, colas brancas em geral não são recomendadas, pois não oferecem rigidez suficiente às peças sob pressão. Podem funcionar num primeiro momento, mas em pouco tempo a colagem pode ceder.

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Foto: Marcos Husky

Precisamos de pouco menos de 30 minutos para conformar cada peça. Para espalhar a cola, acomodamos cada lâmina numa calha de compensado, onde recebia a quantidade exata de cola com uma espátula.

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A cura total se dava após alguns dias, devido a grande quantidade utilizada. Para cada peça aplicamos 1/2 litro de cola.

Vídeo: Marcos Husky

Depois das peças secas, as bordas foram retificadas. A primeira borda com plaina manual, e a borda posterior com serra-circular.

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A raspilha serviu para retirar as marcas das faces e resíduos de cola. Eventuais marcas de grampos, onde a peça foi amassada, utilizamos um ferro de passar roupas sobre um pano úmido. Assim, a madeira dilata e retorna à superfície.

 

O encosto/ assento

Estrutura montada com madeira de pinnus, foi preparada para receber estofamento, com percintas sob o assento. Antes de grampear as percintas, experimentamos sua eficiência num quadro feito de compensado. O quadro deformou, mostrando a enorme força de  tração das percintas. Por isso, além de reforçar esta estrutura com cantoneiras, utilizamos boa espessura em suas peças.

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Sobre o encosto e o assento, experimentamos espumas de várias densidades, suficiente para não “afundar” ao sentar. Na busca do melhor conforto, testamos a cadeira e seus possíveis usos…

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Para a união das pernas com o assento, utilizamos parafusos com porcas americanas, embutidas nas pernas. Em cada ponto de fixação aplicamos um par, o que garantiu resistência suficiente, possível desmontabilidade e discrição, pois não há o que indique a união nas partes externas. Este é um dos “segredos” desta poltrona.

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A exemplo das poltronas de Aalto, utilizamos percintas cruzadas no assento. Devem ser bem tracionadas, com grampos fixados na diagonal, como mostra a foto.

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O estofamento

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Sobre todo o conjunto aplicamos uma fina camada de acrilon, e cobrimos o conjunto com tecido tipo sarja. Depois de alinhavado, as costuras foram fechadas em máquina. As bordas foram grampeadas, e o tecido esticado por baixo do assento. Para isso, durante a montagem da estrutura, foi deixada uma fresta de 10 mm para permitir a passagem do tecido, como mostra a foto.

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Montagem e acabamento

Sobre as peças de tauari utilizamos óleo de Tungue, resultando num tom acetinado e natural. Algumas demãos devem ser aplicadas até a superfície da madeira saturar. Depois de seca, a madeira foi polida com um pano limpo de algodão.

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Uma fina placa de compensado revestida com sarja foi parafusada nas costas da poltrona, sendo esta a última ação deste expediente.

4

O resultado não poderia ter sido melhor. Extremamente confortável e com a belíssima estética de Alvar Aalto, um dos artistas mais brilhantes do séc. XX.

Este trabalho não teria sido possível sem a iniciativa do nosso designer e aluno Thiago Pires. Contribuiu para este artigo nosso amigo, o arquiteto e designer Marcos Husky, e Tommy Mac, com seus vídeos, onde mostra importantes dicas para a conformação de peças curvas laminadas. Demais fontes:

https://www.artek.fi/en/company/about

http://www.cau.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2013/12/Chai41_CristineSayuri.pdf

https://craftcouncil.org/magazine/article/bent-design

http://www.finlandia.org.br/public/default.aspx?contentid=124168

https://www.moma.org/collection/works/4407?artist_id=34&locale=pt&page=1&sov_referrer=artist

http://www.ipt.br/informacoes_madeiras/3.htm

 

Bibliografia

Woodbending handbook / W. C. Stevens & N. Turner. East Petersburg, PA: Fox Chapel publishing, 2008.

Woodworker’s guide to bending wood / Nonathan Benson. East Petersburg, PA: Fox Chapel publishing, 2008.

Tage Frid Teaches Woodworking, book 2. Taunton Press, 1981.

Madeiras para marcenaria, carpintaria e artesanato / Antonino Tripodi. São Paulo, CTT Cultural e editora, 2006.

A madeira e seus usos / Júlio Eustáquio de Melo e José Arlete Alves Camargos. Brasília: SFB/ LPF/ MMA, 2016.

Coleção Folha Grandes Designers. Aalto, Alvar / Licenciado por AUTVIS, Brasil, 2012.

 

ATENÇÃO

Diversos procedimentos de oficina oferecem riscos. Por isso devem acompanhar o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual): óculos de proteção, máscara contra pó, protetores auriculares, entre outros dispositivos de segurança. Apenas pessoas capacitadas devem operar máquinas e ferramentas de corte; ao contrário estarão sujeitas a graves acidentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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